O Esvaziamento de Deus na Criação

kenosis-deus-pai

Quando lemos o texto de Genesis 1 -11 vemos um Deus que se apresenta a humanidade. Ele não é Deus de um povo, mas sim de todos os povos. Não escolheu “Um” para si, mas fez do mundo seu território pleno. Apenas a partir do capitulo 12 há essa particularidade de um Deus de um povo, porém é bom ressaltar aqui que não é o único na inclusão da manifestação divina ( Raabe, Ninive, Samaritanos, Rute), mas sim o povo que Deus toma como exemplo para fazer desse um luzeiro entre os outros povos, como uma cidade edificada sobre o monte com evidente percepção. Em meio a nações politeístas, com seus panteões com deuses que pareciam mais objetos em um grande shopping center, pois os homens os produziam a seu gosto. Existia o deus do vinho e festas que justificava a embriaguez e a orgias, havia também a deusa da sexualidade que permitia o desenfreamento sexual dos indivíduos, como também o deus da guerra que assinalava o ar belicoso e beligerante dos homicidas, pois bem foram criados a imagem e semelhança dos oportunistas e que se fortaleciam da fumaça proveniente da fogueira de suas vaidades. Essas nações conheciam o nome do seu deus, por isso o manipulavam para seu bel prazer, barganhando através de sacrifícios e ofertas os interesses mesquinhos produzidos por suas vontades corrompidos e entretidas pelo irreal

Deus vem como o protagonista dessa história, criada por ele mesmo a partir do nada. Não vivia só, habitava de maneira trinitária (Pai, filho e Espirito Santo) sem vaidade, orgulho, soberba ou afronta.

“No princípio há a comunhão do três e não a solidão do uno”[1]

Se houvesse um só e único Deus reinaria, de fato, a absoluta solidão. Se houvesse dois Únicos, num frente a frente ao outro, vigoraria a distinção e, ao mesmo tempo, a separação e a exclusão (um não é o outro) e uma mútua contemplação. Não seria egoísmo a dois? Com o três, o um e o dois se voltam para o três, superam a separação e se encontram no três. Irrompe a comunhão circular e a inclusão de uns nos outros, pelos outros e com os outros, numa palavra: a Trindade.

O que existe no princípio é a simultaneidade dos três Únicos. Ninguém é antes ou depois. Emergem juntos, sempre voltados uns para com os outros, se comunicando reciprocamente e sem fim. Por isso dizíamos: no princípio está a comunhão. Como consequência desta comunhão infinita e deste infinito entrelaçamentos dos três Únicos resulta a união e a unidade em Deus. Então: três Pessoas e  um só Deus-comunhão. Temos a ver com um monoteísmo, mas  trinitário, singularidade do Cristianismo.”[2]

Porém, Deus decide se autolimitar e criar o ser humano. Outro ser para habitar junto de si. Isso fica claro no texto a seguir:

“Deus, ao criar algo absolutamente distinto de si, “de-limita-se”, de certa forma, se retrai e renuncia a ocupar todos os espaços para que haja algo fora Dele, um espaço de outro, o espaço da criação. Esse gesto criador, que pressupõe essa renúncia inicial por parte de Deus, não é arbitrária e sem significado, pois provem de seu amor: Deus ama o distinto de si e se esvazia, renuncia em favor do outro, dando-lhe espaço e tempo.”[3]

Em tempos necessidade de poder pelo poder e de escalas piramidais que nutrem o desejo e a ânsia de nossos constituintes eclesiais de estarem cada vez mais altos e mais distantes do ambiente popular, o ambiente kenótico revela Deus em uma pulsão absurdamente diferente de toda glória e poder que estamos acostumados a anunciar em nossos jargões pré-fabricados para levantar a autoestima do povo.

O nosso Deus trinitário se absorve, se contrai para poder criar algo fora dele. E, não apenas criar, mas dedicar a esse algo a possibilidade de escolher e de conviver com Deus sem que este interfira categoricamente na vida de suas criaturas. A proporção é tão absurda que o Criador permite que sua criatura o conteste, desobedeça, crie outros rumos, cave seus poços e ache seus caminhos. Deus se limita, pois diferentemente de um déspota que ao se perceber contrariado, logo gera o mecanismo punitivo e emblemático para seus algozes, Ele aqui deixa-se conduzir.

O Deus que cria, está de fora, mas este fora se torna temporário, pois caminha para dentro desse mundo que ele mesmo criou, faz a estrada onde ele passa, concorda com os poetas gregos: “Nele vivemos, movemos e existimos”. Se revela no todo temporal e limitado fazendo a natureza e o que fora criado demonstrar a presença e o cuidado dele. Tudo não é Deus, mas ele está em tudo. Tudo fala sobre ele, pois ele se reduziu, se comprimiu, se tornou perceptível.

Deus cria todo o cenário e os seres para nele habitar. Ele entra na cena criada por ele mesmo para interagir com esta criação e dialogar em ato de plena e constante comunhão. Convida o homem criado para ser coparticipante e corresponsável pela criação quando em Gênesis capitulo 2 versículos 5, dizendo que não havia plantas e arvores frutíferas, pois não havia homem para lavrar o solo, ou seja, Deus o convida para não apenas ser contemplador e usufruidor do que fora criado, mas sim que ajude nesse processo. Dar nomes aos animais, faz o homem se comprometer com cada um desses, já que no Oriente o nome carregava não apenas um elogio a determinado personagem, mas sim a personalidade e os anseios daquele ser. Deus toma atitude tendo o homem como seu objetivo.

Esse cooperador que Deus fez surgir e se relacionava com ele se tornou seu Antagonista. Um ser com uma independência capaz de aborrece-lo pelas escolhas incorretas que faz. O antigo Testamento não se trata das “aventuras de Deus”, mas sim das peripécias humanas e de seu distanciamento do ser que o criou e vem buscando o com laços de amor. Como disse o profeta Jeremias:

“Seduzistes-me e eu me deixei seduzir, fostes mais forte do que eu e prevalecestes.” [4]

Se tratarmos apenas desse fator de autolimitação de Deus encontraríamos pontes e excluiríamos o ser improvável em Cristo, porém os textos que se seguem e quem vão construindo e apresentando o caráter divino, vai distanciando Jesus de Nazaré da declarada potência e majestade de Deus.

Bibliografia

[1] https://leonardoboff.wordpress.com/2012/10/22/no-principio-esta-a-comunhao-dos-tres-e-nao-a-solidao-do-uno/

[2] ibidem

[3] Luiz Carlos Susin, A criação de Deus, p.54

[4] Jeremias 20.7a